Todo triatleta é transgressor, ultra runners também são

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norseman2A maioria dos triatletas e ultra runners percorre caminhos semelhantes nas suas trajetórias no esporte: começam com provas curtas e em pouco tempo percebem a “estreiteza” de percorrer esta distância, e assim seguem para provas maiores e maiores e maiores. Toda vez que é gerada uma adaptação do corpo, onde um sinal de comodidade e conforto começa a aparecer, a alma nos lança para novos “desconfortos”, onde buscamos ampliar nossas experiências e nossas emoções. Este movimento de busca por “lugares amplos”, que possibilitem desenvolvimento e crescimento, é o que torna todo triatleta e todo ultra runner um transgressor.

Fazemos uso desta natureza transgressora nas outras dimensões das nossas vidas? Lendo “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder, pela terceira vez, acabei percebendo que muito do que ele explora é executado por triatletas e ultra runners dentro esporte. E como anda a nossa transgressão fora do esporte?

a almaBonder apresenta boa parte dos seus conceitos explorando exemplos relativos a relacionamentos. Como o objetivo é identificar a natureza transgressora em outras dimensões das nossas vidas, acredito que seja de grande valia manter exemplos fora do esporte.

Em uma mesma pessoa, residem duas naturezas conflitantes e interdependentes: a natureza da conformidade e da adaptação (que vem do corpo) e a natureza da rebeldia e da mutação (que vem da alma). A tensão entre tradição e traição, entre a acomodação e a transgressão.

O corpo é o produto de um determinado momento, de um passado. Seu maior interesse é a preservação, derivando dele o apego. O corpo busca sempre manter tudo como está. A alma é a demanda que vem do futuro, busca transgredir, evoluir, se desenvolver.

O ser humano é a tensão entre preservação e transgressão, entre corpo e alma.O apego fere a alma da mesma forma que a traição fere o corpo. A violência à alma é contra a própria vida e responde pela depressão; a violência ao corpo se expressa contra o mundo, através de vingança e ódio.

Não existe experiência de traição que não venha acompanhada de apego. É nesta dinâmica que devemos manter nossa atenção. Quando um indivíduo que mantém relações afetivas faz movimentos transgressivos movidos pela alma, são imediatamente confrontados com movimentos de apego pelo corpo. Nos relacionamentos, esta mecânica é facilmente percebida. Todas as vezes que um se colocar em movimento, o outro deveria também se por em movimento. Mas o que acontece é o inverso, o outro dá um passo atrás e estabelece uma situação que atravanca o processo vital. Ao invés de se por em movimento, surge com cobranças de acordos estabelecidos no passado. A maioria dos casamentos termina em recorrência deste ato reflexo.

Não há “certo” e “errado” absolutos. A tensão não é entre bom e mau. A tensão é entre o correto e o bom, dado que quando optamos pelo “errado” o fazemos por ser “bom”. É necessário compreender que fazer o bom e fazer o correto têm uma relação de dependência. A tensão entre o que é bom (desejos da alma) e o que é correto (desejos do corpo) deve ser respeitada. Nem só o bom ou só o correto dá conta a centelha permanente que promove e motiva tudo na vida. É na perda da tensão entre o bom e o correto que residem as doenças. Toda vez que fazemos a opção por bom em maior medida que pelo correto, estamos diante da culpa e da violência. Todas as vezes que privilegiamos o correto, estamos diante do apego e depressão.

Traição vem da perda de tensão entre o que é bom e o que é correto. Trai-se pela fidelidade e pela infidelidade. Há casamentos que apesar de serem aparentemente conduzidos dentro das normas de fidelidade, já esboçam movimentos de traição. E estes serão determinantes para a infidelidade posterior.Infidelidade é tanto o rompimento de compromissos como a manutenção dos mesmos de forma destrutiva. Todos nós sabemos quando nossa vida está em processo de aceleração positiva e quando estamos vivendo de uma velocidade artificial, pois a aceleração é negativa. Ficamos deprimidos quando a aceleração se torna negativa, mesmo que a velocidade seja positiva. Isso é perda de tensão. Um dos momentos mais interessantes da interação humana é o ato sexual, ou a própria sexualidade. Esta nos faz perceber este processo de maneira radical, em momento algum pode-se perder a tensão entre o que é bom e o que é correto.

A intimidade radiografa a relação entre corpo e alma e revela estados de tensão e distensão. Esta é a razão da intimidade ser tão provocante, ela revela instantaneamente quando estamos ou não traindo. A palavra trair tem três facetas inseparáveis. Ela denota o não cumprimento de convenções ou acordos previamente estabelecidos, a não correspondência a expectativas e revela informações preciosas sobre as intenções de um indivíduo.

O traidor é alguém que se expõe. Ao contrário do que se imagina, é bastante difícil sê-lo abertamente. Muitas vezes a palavra fraco é associada ao traidor, quando o que este menos representa é fraqueza. É preciso muita coragem para trair, porque o traidor se expõe ao revelar segredos de sua intimidade.

Tudo aquilo que um dia já foi bom num dado momento, que permitiu crescimento e desenvolvimento, pode se tornar um lugar estreito, limitador. No processo de saída dos lugares estreitos, o corpo que não gosta de mudar é convencido pela estreiteza e pelo desconforto. Uma das reações do corpo é empacar; o lugar do hábito é poderoso, mas pressupõe uma vida estreita em conformidade com a realidade e as limitações que ela impõe. Uma outra reação é a tentativa de alargar o próprio lugar estreito, como se a estreiteza fosse externa e não uma relação entre o mundo externo e interno. O futuro existe se nós marcharmos. No entanto, o futuro não está ligado ao presente pelo corpo, a alma guiará pelo caminho.

A melhor analogia é o nascimento. Em um momento, o lugar mais maravilhoso, aconchegante e repleto de nutrientes torna-se estreito. O útero deixa de ser amplo e transforma-se em um lugar “que já foi bom um dia”. A saída é difícil e pressupõe coragem que só se torna possível se o corpo e a alma andam juntos. Saber entregar-se às contrações do lugar estreito rumo ao lugar amplo é um processo assustador, avassalador e mágico. Passado este processo, o corpo esquecerá que nenhum lugar pode ser amplo para sempre. A estreiteza é uma condição da vida para a qual a alma imoral é um mecanismo tão inato quanto o corpo moral.

Ainda em relação ao local estreito, (1) há aqueles que sabem e sabem que sabem, (2) aqueles que sabem e não sabem que sabem, (3) aqueles que não sabem e que sequer sabem que não sabem e (4) os que não sabem e presumem que sabem. O (1) está esperando uma oportunidade de romper, reconhece o bom e permanece à espera de um novo correto. O (2) precisa ser despertado, sabe que o lugar é estreito e ele assim o percebe, mas a possibilidade de empreender em uma caminhada ao futuro lhe escapa. O presente, avalizado pelo passado, é demasiadamente forte para que enxergue além. O (3) não reconhece a estreiteza mesmo quando esta já se instalou. Necessita de terapia com urgência para dar conta da sensação de angústia que se origina em não saber o que há de tão inadequado em sua maneira de perceber sua vida. O (4) também não reconhece a sua estreiteza, apesar de ter um discurso que a desafia. No entanto não percebe as escravidões às quais está submetido. Sem dúvidas, esta é a pior situação. A amplidão do pensamento teórico deste indivíduo cria a ilusão de que está livre da estreiteza.

Aquele que engana a si mesmo é mais perverso que aquele que engana o outro, isso porque aquele que engana o outro está multo mais próximo de cair em si do que aquele que engana a si mesmo.

Há traições pela fidelidade muito mais violentas que as traições pela transgressão. No matrimônio, por exemplo, que as questões de fidelidade tendem a ter sua saúde medida pela prática ou não do adultério, pode-se constatar isso.Quantos casamentos são uma traição profunda à promessa de busca de uma vida de enriquecimento afetivo mútuo? Viver este tipo de casamento, decerto após terem esgotado as possibilidades para curar a relação, é uma forma de traição à alma bem mais séria do que um possível adultério representa: traição ao corpo. Por corpo entenda-se o passado e o compromisso com o passado. A fidelidade hipócrita é um compromisso com o passado que obstrui o presente e o futuro. É mais perniciosa a hipocrisia que se dissimula como conduta exemplar, gerando consequências de várias ordens tão ou mais nocivas que o adultério.Muitas doenças emocionais, perversões e violências dentro da família são resultados de enganar a si mesmo.

Os desejos da alma são reflexos da sua devoção à vida. Tratando-se de situações da realidade e não idealizadas, o transgressor e mais bem-vindo que o hipócrita.

Deve-se temer muito mais as boas ações que nos acomodam que as más ações que nos horrorizam. A nossa experiência é marcada pela alternância entre despertos e torpor. Horrorizar-se é um dos sinais da percepção da estreiteza. Quem não se horroriza perde a capacidade de detectar a estreiteza.

A correlação entre satisfação e honestidade é extremamente importante. Numa relação, a intimidade que se expressa pela possibilidade de ser honesto e espontâneo é indicativa de satisfação. Uma pessoa se sente satisfeita quando consegue estar em dia com o que é correto e o que é bom. Contratos entre indivíduos podem ser perigosos, pois representam a convergência de correto e bom para ambos, mas isto não é imutável ao longo do tempo, precisando ser constantemente revistos.

Seremos tão mais felizes quanto maior a nossa capacidade em manter a tensão entre o que é bom e o que é correto em nossa vida e nas nossas relações.

Quanto das nossas vidas são escolhas que fazemos com a alma (o que é bom, olhando para o futuro) e quanto está entregue às escolhas feitas pelo corpo (o que é correto, olhando para o passado)? Quanto da nossa fidelidade aos nossos compromissos representa violência contra a alma? Como anda a capacidade de identificar estreitezas?

“Uma boa velhice é aquela que vive dos louros de uma vida não desperdiçada.”Este é, sem dúvida, um dos meus maiores focos de atenção: viver a vida de forma plena, livrando-me dos lugares estreitos.

Fico observando a mim e às pessoas e sinto uma enorme aflição quando percebo que as escolhas não são feitas pelas razões que penso que expressam vida ou ainda que o corpo, usando do apego, agride a alma ofuscando a visão, impedindo que sejam vistas as reais possibilidades do futuro.
– Estou com ela porque meus pais e amigos gostam demais dela.
– Ainda estou trabalhando lá porque é perto do meu apartamento.
– Viajarei para o nordeste porque as passagens estão com um preço legal.

Estes são alguns exemplos bobos de coisas que vão sendo escolhidas e mantidas por razões que não demonstram nenhum sinal de vida. Onde está a paixão pelo que se faz, quer seja no casamento, no trabalho, na viagem?

Há ainda um mal maior: aquele que limita o desenho do futuro.
– Estou com ela porque ela é bacana com meus filhos.
– Estou com ele porque ele é um cara mais maduro, já vivido.
– Estamos juntos porque construímos uma história (amigos, família…).
– Estou naquele trabalho só porque o clima é muito bacana.
– Estou naquele trabalho porque tenho acesso aos executivos.

Nos itens acima, com exemplos também simples, sinto uma agonia que chega a me sufocar: quem foi que disse que os cenários futuros não poderão conter tudo o que se espera, além da paixão, o que nos impregna do gosto da vida? Por que, pergunto-me sempre, as pessoas desistem do que desejam e se acomodam? Por que fecham os olhos e mentem para elas mesmas? Como têm coragem de desperdiçar a vida?

No momento da insatisfação, é muito comum nos colocarmos a pensar em possibilidades e cenários diferentes daquele a que estamos submetidos. Numa vontade de sair do lugar estreito, aquele que um dia possibilitou o crescimento, mas que agora o limita, a alma se põe em ação e começa a fazer o movimento de transgressão. Em contato com as dores do rompimento, o corpo usa de todas as suas forças para manter o status quo. Somos traídos pelo movimento inverso, o apego, trazendo uma série de razões de acomodação. Em sua maioria, são apenas boicotes.

Quando não nos pomos a andar, passamos a ter atitudes “violentas”. Entendo violência não apenas aquela em que há contato físico ou coisas do gênero, mas também a falta de vontade de interagir, a falta de paciência, o mau humor, a baixa tolerância ao outro, o baixo interesse pelos problemas do dia a dia, a falta de vontade de participar ativamente da vida do outro. Violência ainda maior é aquela que se faz contra o outro no sentido de impedir que ele tenha outros momentos, outras oportunidades de realização, desenvolvimento, evolução e progressos afetivos e emocionais.

Cada vez mais acredito que somos capazes de enganar aos outros por pouco tempo. Quem acredita que é capaz de ter boa performance no trabalho sem que este seja feito com paixão, está enganado. Quem acredita que pode se sentir bem numa relação “xoxa”, sem paixão e sem tesão, sem admiração, sem vontade de estar na companhia do outro, sendo levado pela velocidade em aceleração negativa, está enganado. Mais ainda, além de prejudicar a si mesmo, impede que os que estão no entorno tenham contato com o que é de verdade.

Que exemplo você gostaria de ter tido dos seus pais? Alguém que foi plenamente feliz, certo? Se isso não tivesse ocorrido, preferiria ter tido o exemplo de alguém com coragem de buscar a manutenção da tensão entre o correto e o bom, em conformidade com os desejos da alma? Ou alguém que sucumbiu aos anseios do corpo, pelo que é correto, pela acomodação, pela hipocrisia e pelo auto-engano?

Bonder explora bastante o assunto relacionamento porque é algo bastante rico sob diversos aspectos. Mas o conceito que ele explora vale para toda e qualquer coisa na vida e o centro da questão é: tão mais próximas de suas vontades suas ações estiverem e tão mais capaz você for de ser você mesmo independente do que os outros vão pensar ou do que você acredita que esperam de você, mas próximos estará de ser feliz e estar bem.

Como Bonder é rabino, ele também diz que é isso o que é esperado de você por Deus, esta é a sua missão em vida. Se afastar do que tem vontade de fazer e de ser o que você é de verdade é um desperdício de vida. Em especial porque não estamos sendo honestos com nada. Estamos agredindo a nós e aos que estão no entorno.

As coisas não precisam ser perfeitas, mas elas precisam ser verdadeiras. Não temos só que estar presentes nas nossas relações, temos que querer estar presentes.

É ilusória a crença de que conseguimos fazer as pessoas felizes e gerar bem estar agindo conforme as pessoas querem por dois motivos: (1) porque por mais bons atores que sejamos, não seremos capazes de representar o que é mais importante: a vontade e (2) porque nem sempre somos tão eficientes em ler o que esperam de nós.

Por outro lado, isto não quer dizer em hipótese alguma que devemos ignorar as vontades alheias e os sentimentos alheios. Só não devemos guiar nosso futuro por eles. Um exemplo bem prático é o fim de um relacionamento. Vamos a ele.

Normalmente as razões do fim de um relacionando estão no próprio relacionamento, estando ou não a pessoa com outro alguém. O fato é que no momento de uma separação, mesmo estando com alguém, eu acredito que a forma mais “doce” e respeitosa de terminar a relação é explicando as razões, que costumam ser exatamente as que o Bonder citou: um caminhou/evoluiu e o outro não. Somos mutáveis, ou nos propomos a caminhar juntos ou vamos nos distanciar. Penso eu que nada mais doloroso que ter a razão da separação em um outro alguém. Seguem as razões: a pessoa vai começar a buscar “desde quando” isso vem acontecendo, vai se sentir enganada, vai temer que outras pessoas saibam, vai ter vergonha perante a sociedade e, uma das piores coisas, vai tentar infernizar o futuro do relacionamento que provavelmente seguirá.

Depois do relacionamento terminado, passado o luto (x meses…) talvez seja a hora de aparecer com alguém. Penso que isso é ter respeito. Por mais louco que possa parecer, as pessoas se doem mais pela forma como são vistas que pelo fato em si. Uma traição causa mais dor pela exposição que pela ato em si.

Ninguém além de quem está vivendo a situação tem a visão clara dos acontecimentos, penso que a pessoa mais fragilidade é a pessoa que está sendo abandonada, então nada mais humano e de bom tom que ela seja protegida. Vejo como grande aberração relações que se acabam e o novo elemento invade o espaço, como se fosse maior ou melhor. Não penso que seja uma disputa por nada “absoluto”, somos sempre um lugar amplo até que nos tornemos estreitos e aquela mesma situação pode nos pegar logo ali na esquina.

Esta falando de relacionamento, mas serve pra qualquer coisa: há pessoas que falam mal do trabalho no Facebook, que o chefe é um bosta… E quando saem do emprego, falam mal e amaldiçoam. Mas a vida dá voltas e tudo pode acontecer, possivelmente você esbarrará com as mesmas pessoas em vários momentos da sua vida.

Seguir as demandas da alma não quer dizer ignorar para o mundo, quer dizer fazer o que se tem VONTADE, perseguir os lugares amplos, sem jamais fechar os olhos para os lugares estreitos, que tiveram seu momento de amplidão.

Mais ou menos o que ocorre quando as pessoas falam que se relacionaram com uma pessoa por 10 anos, mas não deu certo. Hã? Deu certo! Por 10 anos! E é importante viver intensamente enquanto dá certo. Somos responsáveis pela caminhada.

A quantas andam as transgressões nas demais dimensões da sua vida? Tem ignorado os lugares estreitos? Tem se permitido estar impregnado do gosto da vida? Está certo de que, na velhice, poderá desfrutar dos louros de uma vida não desperdiçada?

Comentários

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4 Responses

  1. Emanuel Muniz says:

    Que loucura Aline! Texto maravilhoso! Parabéns, são excelentes reflexões!

  2. Aline Carvalho says:

    Hehehehe… Loucura pouca é bobagem! =)) Que bom que curtiu!

  3. Bernardete says:

    Texto contundente e real! Amei!
    Parabéns!

    • Aline Carvalho says:

      Oiiiiiiiiiiii!
      Obrigada pela honra de tê-la aqui!
      Aprofunde-se no Bonder! Vai se apaixonar!
      Até amanhã!
      =)

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