Meu 3º Ironman, o relato

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Segue um RELATO do que se passou na minha prova: corpo, mente e alma.
Acordei às 3h. Queria chegar na transição 4h30, na hora que abriria. Antes de ir, café da manhã e o resto do ritual matinal.
Estava bem tranquila, normalmente fico nervosa só na hora da largada mesmo. Desta vez, as minhas sacolas da prova estavam mais vazias, acho que estou deixando menos coisas nas transições!
Cheguei 4h40 e 5h já estava tudo pronto! Acho que não precisarei mais chegar tão cedo nas próximas. Estava frio, mas agradável. Fui ao banheiro – estava limpo e cheiroso!
Coloquei roupa de borracha, passei vaselina, separei o que levaria pra largada.

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Às 6h, comecei a caminhar para a largada. Encontrei uma galera, muitos sem crachá! Hehehehe

Entrei na água 6h30, estava perfeita. Mar calmo e temperatura ótima. Caminhei para o curral da natação, encontrei a família e o Dudu, mais uns tri atletas conhecidos, amigos, Adriana, Roberto Bobito e a amada Elen. Beijo na Ironmammy Jane, Tathi, Gabriel e Dudu. Ouvi muitos votos de “boa prova”.
Já na areia, começou o nervoso. Agradeci por estar ali. Mentalizei a natação e as transições. Visualizei a minha chegada. Pensei na minha meta: 11h29. O plano era 1h30 / 5h30 / 4h20 + mais as transições.

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Posicionei-me no meio, queria aproveitar a esteira enquanto desse. Neste ano, havia boias intermediárias, ajudaria a navegar. Comecei a pensar na galera e agradecer mentalmente…
PEEEEEEEEEEEEE! Largou! Fui caminhando pra água decidida a enfrentar os socos, pontapés e puxões! Até a primeira bóia de vértice, estava bem movimentado por perto, gente de todos os lados. Estava meio agoniada, mas me sentindo bem. Tentei passar um pouco mais longe da muvuca na virada da bóia, evitando algumas pancadas. Nadei para a segunda bóia também com bastante gente. Pensei que não estava nadando tão mal quanto pensei que seria, porque estava me mantendo no bolo. Voltando pra areia, também foi fácil navegar. Sai para o trecho de areia feliz, pensando que daria para fazer abaixo de 1h30.
Bebi água, fui correndo para a segunda perna da natação. Vi que as pessoas estavam fazendo uma barriga e tentei nadar mais para o lado oposto, imaginei haver uma correnteza por ali. Neste trecho nadei bem sozinha. Pensei que havia desacelerado no ritmo, mas me sentia bem. Só o pescoço que sabia que estava esfolado, desde o comecinho senti que não estava perfeito, mas na prova “dane-se”. Se fosse treino, teria parado pra arrumar.
Neste trecho, comecei a sentir alguma agonia por estar me sentindo meio sozinha, mas consegui me acalmar. Estava feliz por ter conseguido chegar ali e estar bem.
Já voltando para a areia, estava me sentindo bem mais sozinha mesmo. Dei uma parada, olhei ao redor, todos estavam à minha direita. Eu, exímia nadadora, pensei que estava errada. Nadei na direção da massa e, ao me aproximar da areia, vi que eu estava certa, o povo é que havia feito uma barriga mesmo.
Aproximando-me da areia, comecei a pensar no que faria na transição: óculos na cabeça, abra zíper, tire mangas, abaixe a roupa até passar do quadril, deite na frente de um homem para puxar a roupa de borracha, voa para colocar as tralhas do ciclismo.
Sai da água: 1h21, 4180m. Quase chorei de alegria. Nadei bem demais para o que eu esperava! O sonho das 11h30 estava mais próximo, já que a natação era o grande ofensor.
Quis ser rápida na transição, fui concentrada. Lavei os pés, calcei a meia, sapatilhas, coloquei número, capacete, géis nos bolsos. Estava pronta para o ciclismo. Corri até a bike, atenta para não escorregar e de olho no ponto de referência que eu havia marcado.
Montei na Blackbird, olhei o relógio: abaixo de 1h30. Pensei “vai dar certo”! E lá fui eu! Confiante! Comecei a pedalar, tomei gel, BCAA, cápsula de sal. Já estava com minha bebida no aerodrink, tudo esquematizado.
Comecei a sentir uma vontade de ir ao banheiro, mas pensei “No ciclismo tá tranquilo, não sacode! Na transição pra corrida, eu resolvo!”. Segui em frente. Comecei a fazer as subidas do pedal, estava me sentindo bem. Comecei a encontrar algumas pessoas conhecidas e comecei a marcar a diferença em km que estavam de mim.
Temos algumas referências nossas, velocidade, cadência, percepção de esforço, mas quando há fatores como vento no pedal ou correnteza na natação, é bom ter outras pessoas como referência para saber se há algo com você ou se é algo externo.
A dor de barriga foi daquele jeito que todo mundo que já passou mal na rua ou em algum local onde não tinha acesso a banheiro conhece: calafrios, dor, pontadas e a certeza absoluta, por alguns momentos, de que não será capaz de lidar com aquilo. Bem, foi assim do km40 até o final. A dor e o portfólio de sensações vinham e iam embora.
Segui pedalando na minha percepção de esforço que eu estava programada para fazer na prova. Minha sensação era de vento contra em todos os sentidos. Algo esquisito mesmo! E eu realmente achei que era vento. Não estava me sentindo exatamente FRACA.
Mas uma coisa estava estranha: não estava conseguindo fazer o ritmo que eu imaginei para a prova, o que eu atribui ao vento. Só que havia um bom número de atletas na prova que eu conhecia o pedal, das duas uma: ou o mundo está errado ou há algo errado comigo!
Quando estava seguindo para fechar a 1ª volta do ciclismo, ainda havia uma esperança em mim: meu Garmin estar errado. Pensei que ele podia ter se perdido, marcado menos km. Havia uma marcação no chão com a km e um símbolo Ironman. Minha km estava bem menor, o que me daria uns 15-18 minutos a menos nos 90k, exatamente o que eu estava planejando.
A tristeza bateu quando me aproximava do fechamento da primeira volta: fecharia com 3h. Eu estava mesmo na merda! Pensei em parar para ir ao banheiro, mas achei que seria pior se parasse ali. Decidi seguir até onde desse, de repente, na saída do túnel eu paro!
Segui e a dor com seu portfólio de sintomas vinha cada vez mais forte e mais frequente. Confesso que estava bem preocupada com as possíveis conseqüências daquilo. Uma cena tragicômica foi no meio de uma subida, que eu não sabia onde colocar força! Na perna ou na concentração para me manter íntegra!
Havia uns 6-10 ciclistas que estavam por perto: eu os passava em alguns momentos e eles me passavam em outros. Comecei até a brincar: “vamos chegar juntos!”, eu dizia quando eu passava ou quando eles me passavam.
Eu ainda achava que era vento! Não me sentia fraca, apesar das dores e apesar da minha velocidade estar bem baixa.
Cheguei na T2 decidida a dar um jeito da dor de barriga e também correr bem! Sabia que não faria meu tempo mais, mas como o coach havia dito que acreditava numa maratona para 4h06, pensei em buscar isso. Quem sabe?
Fiz a transição rápido! 4’55 com banheiro no pacote. Ótimo para meus parâmetros.
Sai correndo rápido, estava me sentindo bem melhor das dores, pensei que havia acabado ali o sofrimento da pança. Só que não. Na subida de Canasvieiras começou a tormenta da pança na corrida. Parei na Igrejinha para ir ao banheiro. Na volta, parei novamente ali.
Segui para Jurerê e comecei a vomitar. Aí realmente me preocupei. Pensei que seria um dia realmente muito mais longo do que eu imaginei. Nesta hora, é óbvio que uma avalanche de pensamentos negativos vem à cabeça! Vamos ao diálogo mental!
“Que merda! Não era isso que eu esperava para o dia de hoje! Aaaaahhhh, Dona Aline! Vamos à prática do que você prega! Você não controla as coisas, hora de lidar com seus monstros!”
Óbvio que eu queria fazer o meu tempo! Óbvio que eu queria chegar antes de 11h30! Óbvio! Eu estava treinada pra isso! Mas não seria do meu jeito! Seria da forma que a prova se apresentou pra mim! Chorei. Meio que de desespero, meio que de raiva. Não é fácil lidar com o que não controlo.
Nesta hora, fui buscando todo mundo na cabeça. Pensei no Cesário e na prova que ele quebrou. Pensei na família que estava ali, pensei na galera que sempre manda good vibes, pensei em mim. E pensei no Renato. Chorei. Chorei porque era o momento de vivenciar e atestar meus valores, meus porquês.
Patricia deu o maior apoio, quando passou de bike. Coisas que só um Ironman sabe fazer desta forma: “engole o choro e vai”. Obrigada, Pati!
Fechando a primeira volta, os 21k, estava gelada. Havia vomitado e ido ao banheiro várias vezes. Estava preocupada com o que aconteceria dali pra frente, passando pra fechar, chamei o Dudu, queria que avisasse minha mãe, irmã e cunhado que não estava bem, que demoraria mais que o esperado. Queria que eles ficassem calmos, não queria que me vissem rastejando!
Minha irmã saiu correndo, minha mãe também. Cena de comédia da vida privada! Dudu veio junto para acalmá-las. Ele falou que iria comigo por um tempo. Chicco também estava por perto e o meu super staff mais amado do mundo Roger também estava lá. Na cabeça, estava o resto da galera. Plano B em campo: passaria a usar só Pepsi até acabar a prova. Um anjo da guarda arrumou um ENO e, depois dele, não vomitei mais.
Na companhia do Dudu, embalei uma sequência top: corre, dor de barriga, caminha, banheiro, corre, dor de barriga, caminha, banheiro.
Sem colocar nada pra dentro além de Pepsi, deu uma acalmada na barriga. Obviamente, virei a atenção para o “have fun”. Foram assim meus últimos 21k. Brincando com quem passava, com quem me passava, com os staffs, com o Dudu, com o Roger, com a família.
A última volta foi mais tranquila, só parei uma vez, eu acho! Mas consegui correr uns km direto. No km40, a última emoção: uma bolha deu sinal de vida! Mas a tropa que estava comigo (Roger, um amigo dele, o super Dudu) não deixaram nem eu reclamar: pensa em outra coisa! Kkkkkk
Minha vontade durante a maratona do IM era acordar na segunda e fazer uma maratona pra valer. Estranho ter pernas e não conseguir correr.
Só que aí, quando você entra na Búzios, aquele último km onde tudo passa pela cabeça, nada nada nada nada ruim tem espaço na mente! Só gratidão por tudo: por estar ali, por estar literalmente ao lado de PESSOAS especiais, por ter saúde, por estar fazendo o que mais amo.
E lá vem a luz! Vem a chegada! A celebração! ALINE, YOU ARE AN IRONMAN!!!!
E sabe o que é mais importante que ela? O caminho! E neste vídeo tem algumas fotos do caminho. E sabe o que é melhor? Tem muito caminhar ainda pela frente! Muitos caminhos, uma longa jornada de emoções e sensações!
MUITO OBRIGADA TODOS QUE PARTICIPAM DA MINHA VIDA.
Não vejo a hora de fazer outro!
Irmã, mãe, cunhado: vocês são essenciais! Ano que vem tem mais!
Roger: você é único! Obrigada!
Dudu: que venham os próximos! GRATIDÃO eterna!

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1 Response

  1. Top, gostei da dica do Eno, bom pra ter a mão no carona da torcida!

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