Qual é a tensão certa entre coerência e tolerância?

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cabo_de_guerraEstou em crise existencial. Hehehe… Não sou uma pessoa dramática, mas isso realmente é uma coisa que me incomoda e que não sei a resposta mais adequada a mim. Estou tentando encontrar a tensão certa entre coerência e tolerância.

Fazendo uso da abordagem que Nilton Bonder explora na construção dos conhecimentos que ele trabalha em seus livros, resolvi exercitar neste meu conflito o que ele chama de tensão.

Num de seus livros, Bonder diz que devemos achar a tensão adequada entre o que é bom e o que é correto. Escolher entre certo e errado ou entre o que é bom e o que é ruim é moleza! Mas e se o bom é errado e o correto é ruim? Qual caminho seguir: o do bom errado ou do correto ruim?

Bonder diz que não devemos pender só para um lado ou só para o outro. Há uma tensão entre estas coisas que seria “a mais adequada”. Um exemplo bobo seria em relação à alimentação. A maioria das pessoas considera uma alimentação saudável “correta e ruim”, assim como doces e frituras “errado e bom”. Acho que já entenderam o conceito da “tensão”.

Para uns, estar mais perto do correto é o ideal. Pra outros, mais perto do bom é o ideal. O fato é: estar somente de um lado traz conseqüências devastadoras. Sendo bem simplista: mais perto do bom e errado há enorme risco de ter uma vida irresponsável; mais perto do correto e ruim estaríamos fadados à depressão. Ler Bonder dói: ele nos faz assumir coisas em nós que preferiríamos que ninguém soubesse! Nem nós mesmos! Hehehehe…

Voltando ao meu caso neste post. Sempre fui uma pessoa que se posiciona “formalmente”, quando discordo de algo, falo, manifesto-me de todas as formas que posso! Em tempos de Facebook, excluo, bloqueio! Penso ser coerente com meus valores, uma vez que me afasto daquilo que não concordo. Não me omito! Acredito que não se posicionar em relação ao que está errado é estar a contra o que está certo.

Desde nova sou assim. Obviamente, atraio bastante gente que não gosta desta postura, aqueles que têm pavor de conflito ou que não suportam que discordem de algo, tem horror a mim. Por outro lado, aqueles que são afins a discussões produtivas, debates de ideias, coerência das ações ao discurso, acabam tendo afinidade.

Só que à medida que vamos amadurecendo, ampliando os horizontes e a nossa capacidade de percepção e entendimento, vamos sendo capazes de enxergar mais longe, mais detalhes, mais pessoas, mais comportamentos. E é isso que está me deixando meio incomodada.

Darei alguns exemplos bem práticos de situações e da minha postura diante delas:
Descubro que o dono de uma empresa é um idiota, tem a postura de enrolar os clientes, atrasa pagamento a fornecedores por falta de responsabilidade (momentos de dificuldade todos passam) ou qualquer coisa que faça com que eu tenha restrições em relação ao cara. Minha reação: não compro mais lá por nada.
– Tenho um amigo e coincide de trabalhar com ele em algum lugar, descubro que o cara é um mané, sem compromisso, enrolão. Minha reação: amizade quebrada.
Fico sabendo que alguém se dopa ou anda no vácuo ou trapaceia de qualquer forma no esporte. Minha reação: afasto-me, bloqueio, passo a ter nojinho da pessoa.

Poderia listar infinitas coisas aqui, que eu associo à coerência, tanto para me afastar (por discordar da postura) ou para me aproximar (por admirar a postura). Eu tenho uma mega dificuldade em separar as coisas. Se o cara é trapaceiro numa coisa, não consigo pensar que não será noutra.

Por pensar assim, pessoas que se associam a pessoas cujo completamente é sabidamente reprovável, também acabavam perdendo meu respeito por tabela. Fulana A é casada com Fulano B que é um marginal. Não consigo pensar que a Fulana A é isenta, que é uma boa pessoa.

Sempre fui assim, em todos os ambientes, com todas as situações. Cadê o conflito? O conflito vem no momento onde coisas que desprezo vem de pessoas que admiro. É uma reação estranha internamente… Ao mesmo tempo que continuo desprezando a coisa em si, reajo tentando entender.

Citarei situações genéricas, como exemplo:
– Um amigão se separa e passa a ter atitudes idiotas, para as quais eu não tenho paciência: vai pra night, pega adolescente, fica bêbado, ignora os filhos, faz besteira no trabalho… Como se tivesse 18 anos! Se é uma pessoa distante, eu simplesmente deletaria do meu convívio. Mas eu tento entender, tento conversar, tento aceitar.
– Uma amiga resolve colocar 1l de peito, botox, vira “Maria-Maromba”, casa com um troglodita. Em circunstâncias normais, eu me afastaria. Sendo amiga, eu tento ajudar, aceitar.
– Um amigo visto por mim no vácuo. Se é um desconhecido, crio asco instantâneo. Com amigo não é assim… Tento não tocar no assunto, bloquear meus pensamentos.

Associaria estas coisas à tolerância. Eu admito que algo em mim muda. Arranha a imagem da pessoa. É a minha decepção, a frustração da pessoa não atender minhas expectativas dela enquanto ser humano.

Se formos falar isoladamente, acho bacana ser coerente e ser tolerante. Mas olhando mais de perto, estas coisas são opostas! A vida toda tendi para ser mais coerente que tolerante.

Os anos vêm passando e tenho que reconhecer que está cada vez mais difícil ser 100% coerente: tanto pela maior compreensão das motivações humanas, o que aumentou minha tolerância, quanto pela “realização” de que é praticamente impossível ser 100% coerente.

Se formos analisar tudo, talvez seja mesmo impossível ser coerente. Alguém concorda com trabalho escravo na China? Então como viver sem consumir os produtos chineses? Os mais radicais dirão que é possível. Mas quantos estão dispostos a isso? Em outras épocas eu diria: se você não se posicionar contra o que está errado, então você é a favor.

Eis o centro dos meus conflitos: como aceitar sem me sentir conivente? Como me posicionar sem me sentir cruel? Como tolerar sem me sentir incoerente com meu discurso?

No fim, a vontade que dá é me isolar do universo. Mas quanta arrogância, não? Como se eu fosse isenta de deslizes, derrapadas e afins. Bem, como o isolamento não é uma solução, só evoluímos na presença de pessoas, sigo em busca! Em busca da tensão adequada entre coerência e tolerância.

Pelo visto, esta será uma fonte eterna de reflexão e amadurecimento: aprender a tolerar certas coisas, em certa medida, independente de quem. Agir com coerência, mesmo que em relação aos mais próximos. E conseguir, no meio disto tudo, reconhecer-me nas minhas próprias atitudes.

Comentários

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9 Responses

  1. marcelo says:

    ótimo texto, Aline.. Só nao concordei com a sua conclusão. Pq se vc agir com coerencia, baseado no q vc acha correto, em relação a todos, e nao pesar o afeto, carinho, etc…. vc inevitavelmente se afastará de todos, pq todos cometemos transgressões, q se levar a ferro e fogo, vc excluirá. Entao, só discordei de uma frase no seu texto, concordo em tolerar certas coisas independente de quem, mas nao concordo inteiramente em agir 100% coerente com pessoas mais próximas…. o meu conflito interno é outro que a Legiao Urbana traduziu bem.. mas nao tem nada a ver com o texto:” …quantas cances desperdicei quando o que eu mais queria… era provar pra todo mundo.. que eu nao precisava provar nada pra ninguém…”, vidinha complexa, essa….. rs..

    • aocarvalho01 says:

      Marcelo, não entendi bem do que discordou! Me ajuda! Quem sabe você não resolve o meu caos! Kkk
      Se eu entendi, você não discordou!
      Nossa, tá tudo confuso! Hauhauahau
      Eu CONCORDO que temos que ser tolerantes. O meu conflito é que eu SEMPRE fui COERENTE.
      Nunca me senti não sendo coerente, mas hoje em dia eu acabo me sentindo assim, quando perdôo ou não ajo com tanta dureza com algumas pessoas.
      E no texto não conclui nada! Quisera eu ter concluído algo! A conclusão é que esta será sempre uma baita reflexão: até que ponto devo “aceitar” coisas erradas? Até que ponto deve repelir o que discordo? Que limite é esse entre coerência e intolerância?
      Sigo tentando descobrir! Tentando não me perder!
      Quanto ao provar que não preciso provar nada pra ninguém… Também vivo isso!
      Beijossssssss

      • marcelo says:

        rs… eu fui escrevendo e tb ficando confuso.. hahah. acho q isso é um fato da vida.. vc se permitir q o nível de tolerância com as pessoas seja diretamente proporcional ao grau de importancia que ela tem na sua vida… Se a minha mae comete um furto, eu nao vou me distanciar dela.. mas se um colega cometer, sim…..

  2. Wolber says:

    Nossa achei incrível esse texto,já pensei muito nisso(é um conflito mais comum q muitos percebem ou dão conta de notar),só ñ usava esses nomes.Creio q além de Deus nada é 100% bom,correto,seja pensamento,modo de ser,(coerência ou tolerância),temos algumas historinhas como a dos porcos espinhos na era do gelo(pesquisa depois),que abordam a ideia de aceitação do outro,mas basicamente deixam essa duvida sobre a tensão certa,a “medida certa”entre ser coerente e tolerante,e,bem eu concordo com a sua conclusão,e apesar de ela parecer uma resposta,na verdade ela ñ é,ñ existem respostas para questões assim,então devemos viver -“só evoluímos na presença de pessoas” e aprender,seja cm dor ou amor e -“reconhecer-me nas minhas próprias atitudes.”
    Parabéns,foi mal se entendi errado ou ñ passei meu pensamento corretamente,ms vc sim escreveu muito bem,Parabéns…

    • aocarvalho01 says:

      Oi, Wolber! Acredito que você tenha entendido exatamente o meu conflito! E de fato não penso que haja uma conclusão, a não ser que não há conclusão alguma viável! Hehehe…
      Obrigada pela visita e apareça! Quem sabe não nos ajudamos nos nossos conflitos!? Beijo!

  3. Ah, garota! Eu creio que vivemos em constante conflito com essas coisas. Principalmente porque nossa visão de mundo pode mudar, por exemplo, se te apaixonas por um troglodita! Também creio que viver socialmente nos ensina o tal equilíbrio de Bonder. Mas esse equilíbrio ou essa tolerância podem não me parecer coerentes em alguns momentos, sabe? Kkkkkkk… De qualquer maneira, isolar-se do social pode nos levar à depressão tão ou mais rapidamente que o certo e ruim. Conclusão: permanecemos na mesma!

    • aocarvalho01 says:

      Otavio, já sou apaixonada por um troglodita: Vin Diesel! Kkkkk
      Mas sobre tolerância… Eu nunca fui tolerante com o que está errado. Tá errado? Fim. Só que hoje, conseguindo olhar mais além, se eu fosse agir assim, até eu mesma esbarraria em coisas que sou radicalmente contra. Para não ser tão polêmica, o exemplo do trabalho escravo serve… Somos coniventes com ele, em algum nível. E aí?
      É meio nesta linha o meu desconforto… Vejo crianças na rua e nada faço com elas. Sou conivente com isso?

  4. Ironmae says:

    Oi Aline, adoro seus textos e entendo seu conflito (o que aliás, acho que todo mundo com uma certa medida de conciência vive). De fato, ele existe e é ponto de reflexão. Apenas para podermos tentar um novo texto e quem sabe uma solução (duvido a solução, acho que só aprofundaríamos a reflexão), vejo no texto uma dicotomia entre bom e mal, certo e errado, aliás acho que você pensa geralmente assim pois a maioria dos seus textos explora os temas de forma dicotomica. Para mim o conflito aparece quando a atitude, a pessoa ou o fato não são bom ou mal, certo ou errado, preto ou branco. Eu acho que há na vida uma enorme zona cinzenta (na minha opinião quase tudo está na tal zona cinzenta) que envolve uma série de circunstâncias por traz das ações, uma série de questões sempre muito mais complexas do que aquelas que percebemos, uma história mais complexa, desejos, criação, realidade, pensamentos, enfim, muitos detalhes envolvem ações, fatos e pessoas que as tiram de ser boas ou más e as colocam em zonas cinzentas. Espero que você entenda o que estou tentando dizer e que aproveite para refletir e quem sabe escrever um pouco (vou adorar ler) sobre essas tais zonas cinzentas.

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