Dopados: trapaceiros ou vítimas?

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lance3.jpg_3Afinal, dopados são trapaceiros ou vítimas? Com o caso do ciclista Alex Arseno divulgado nesta semana, centenas de atletas amadores e profissionais manifestaram-se nas mídias sociais. Uns claramente acusando os dopados de trapaceiros convictos, outros sustentando a defesa de que são apenas vítimas do contexto no qual o ciclismo e o esporte de alto rendimento se encontram. Para explorar o tema, farei uma introdução falando sobre a história do doping e farei um relato de tudo o que li ao longo desta semana sobre o caso e sobre doping.

Introdução: contextualizando o doping

Fonte: http://www.efdeportes.com/efd200/breve-historia-sobre-o-doping.htm

Doping: início e desenvolvimento no esporte

Os registros do uso das substâncias que melhoram o desempenho físico começaram na antiguidade, com o intuito de comemorar rituais religiosos, celebrar as vitórias das guerras, preparar os atletas para as competições etc.1,2.

Trezentos anos antes de Cristo, os egípcios iam à guerra sob o efeito da papoula, os vikings aumentavam sua força com a droga bufoteína2. Em 2700 anos antes de Cristo, na China, o imperador da dinastia Cheng, escreveu sobre uma planta local que causava efeito estimulante – tinha efedrina, a Machuang, sendo muito utilizada para aumentar a disposição dos guerreiros no combate, aplicada para aumentar a produtividade do trabalho e recomendada para melhorar a performance dos esportistas chineses3,4.

downloadNa América do Sul, os povos pré-colombianos mascavam folhas de coca para suportar mais tempo no trabalho pesado2. Os índios da América do Sul também mascavam folhas de coca em suas longas viagens com o intuito de aumentar a resistência e diminuir a sensação de fadiga5. Espanhóis evidenciaram durante a colonização de nativos da América do Sul e Central, esforços extremos com o uso de substância para aumentar o desempenho físico6. Os incas mascavam folhas de coca e conseguiam percorrer por 5 dias uma distância de 1750 km na altitude. Os astecas de Tarahumara, do norte do México, mascavam um estimulante das raízes do cacto, o Peiote, permitindo que eles conseguissem percorrer longas distâncias durante 1 a 2 dias.

Na Grécia antiga, em três séculos antes de Cristo, os atletas olímpicos tentavam aumentar seu desempenho nas competições ingerindo chá de ervas, cogumelos, comiam testículos de touro e outros6. Talvez tenham sido os atletas gregos os primeiros a utilizar substâncias para aumentar a performance nas competições esportivas.

O termo doping é usado para designar uma bebida estimulante utilizada por tribos da África do Sul para rituais religiosos7 ou no momento preparatório antes das batalhas8. Esse termo foi aplicado primeiramente no turfe para acusar o uso ilegal de substâncias proibidas em cavalos que tinham a meta de aumentar a performance. Isso aconteceu no início do século XX. Posteriormente a expressão doping foi aplicada aos outros esportes.

shutterstock_51452437Nas Olimpíadas de Berlim em 1936, a política nazista da superioridade da raça ariana estimulava os atletas alemães à vitória e disseminou o uso de qualquer artifício que os levasse ao pódio9. Antes e após essa disputa, surgiram suspeitas de doping dos esportistas alemães.

Na 2ª Guerra Mundial (1939 a 1945), os cientistas alemães sintetizaram a anfetamina para os pilotos de bombardeio noturnos porque aumentava a acuidade visual e mental10. Os soldados alemães que atuavam no campo de batalha faziam uso de esteroides anabolizantes para aumentar a força e a agressividade. Essa iniciativa dos alemães na 2ª Guerra Mundial, dopar seus soldados, foi descoberta fazendo experiências nos presos dos campos de concentração. A maioria dos soldados não sabia que estava recebendo essas substâncias para aumentar o desempenho durante o combate, era receitada uma “vitamina” para os recrutas suportarem melhor os esforços da guerra.

Após a 2ª Guerra Mundial, vários tipos de doping desenvolvidos pelos alemães e outras nações migraram para o esporte de alto rendimento. Então, preocupada com esse problema, a partir de 1967, a Comissão Médica do COI instituiu um index de substâncias proibidas11. Em 1968 começaram a ser realizados testes antidoping, durante os Jogos Olímpicos do México. Atualmente o controle do doping vem sendo feito regularmente nas disputas, nos Jogos Olímpicos o caso de doping vem sendo detectado ao longo dessa competição12. A figura 1 mostra a quantidade de testes nos Jogos Olímpicos e a figura 2 os casos de doping detectados na competição Olímpica.

Figura 1. Quantidade de testes antidoping em várias edições dos Jogos Olímpicos de Verão

Figura 2. Doping detectado em várias edições dos Jogos Olímpicos de Verão

Apesar do caso de doping ter diminuído na Olimpíada de 2012, realizada em Londres, nem sempre é possível detectar as novas drogas, sendo fundamental educar os atletas e treinadores para evitar as substâncias proibidas com intuito de banir esse ato antiesportivo das competições.

Referências

  1. McArdle W, Katch F, Katch V (2011). Fisiologia do exercício: nutrição, energia e desempenho humano. 7ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara.
  2. Vizzolto S (1988). A droga, a escola e a prevenção. 2ª ed. Petrópolis: Voze.
  3. Negrão C, Barreto A (2010). Cardiologia do exercício. Barueri: Manole.
  4. De Rose E et al (2006). Informações sobre o uso de medicamentos no esporte. 5ª ed. Rio de Janeiro: COB.
  5. Astrand P-O, Rodahl K (1980). Tratado de fisiologia do exercício. 2ª ed. Rio de Janeiro: Interamericana.
  6. Weineck J (1991). Biologia do esporte. São Paulo: Manole.
  7. Platonov V (2004). Teoria geral do treinamento desportivo olímpico. Porto Alegre: Artmed.
  8. Ghorayeb N, Dioguardi G (2007). Tratado de cardiologia do exercício e do esporte. Rio de Janeiro: Atheneu.
  9. Tubino M. (2001). Dimensões sociais do esporte. 2ª ed. São Paulo: Cortez.
  10. Bahrke M, Yesalis C (2002). Performance enhancing substances in sport and exercise. Champaign: Human Kinetics.
  11. Guillett R et al (1983). Manual de medicina do esporte. São Paulo: Masson.
  12. International Olympic Committee (2014). The fight against doping and promotion of athletes´ health. Lausanne: COI.

Alguns casos na história, acesse aqui: Relembre 20 casos de doping que chocaram o esporte.

 

Debatendo o doping

lance-armstrong-cheatingLembro muito bem da minha primeira reação à acusação do Lance: sai em defesa daquele que foi, até aquele momento, o maior ídolo do esporte que tive na minha vida. Reagi como muitos, se vários (todos?!) se dopavam, por que só ele seria punido de forma tão severa? Só que o caso do Lance foi além, muito além da trapaça em uma competição. Lance teria me desapontado como ser humano. Tratou-se da “Desconstrução de um ídolo“. Mais detalhes no texto que publiquei à época, clique aqui.

Tentando digerir esta história em mim mesma, passei a ler tudo o que tive acesso sobre o caso. Também pensei por que não liberavam geral. Depois que li o relatório completo do caso, mudei um pouco a minha visão: o esporte e os atletas não deveriam ser obrigados a se submeter ao uso de substâncias prejudiciais à saúde para que façam parte das competições de alto rendimento. Não se pode institucionalizar o doping! 

51JsBdygXHL._SX345_BO1,204,203,200_“Circuito de Mentiras” é um livro de Juliet Macur, premiada repórter do New York Times que acompanhou durante quase dez anos a incrível trajetória de Lance Armstrong. Com a reputação em ruínas, abandonado pelos antigos patrocinadores e acusado de articular um grande esquema de uso de drogas para aumentar o desempenho, ele contou pessoalmente a Macur sua própria versão do caso. Macur também conversou com colegas de equipe e parentes de Armstrong, e reuniu relatos de centenas de testemunhas para revelar a dimensão do escândalo que transformou o ciclismo mundial.

O mentor de Lance e um de seus maiores amigos, J.T. Neal, em seus últimos anos de vida, antes de sucumbir ao câncer, deixou mais de vinte horas de gravações, em que registrou boa parte de sua experiência ao lado de Lance Armstrong, incluindo detalhes sobre o consumo de substâncias ilegais e a prática rotineira de doping. Em “Circuito de Mentiras”, Macur revela em detalhes o sistema elaborado por Armstrong e imposto aos atletas de sua equipe. (Descrição adaptada do site oficial da Saraiva)

Com este livro, ficou bem mais claro que tudo e todos estavam envolvidos: atletas, equipe, treinadores, médicos, patrocinadores, governo, fãs! Até ler este livro, eu não tinha ideia da extensão da “máfia do doping“. Uma coisa que também ficou muito evidente: dentre aqueles que estavam envolvidos, havia alguma diferença.

Dentre aqueles que confessaram e/ou foram pegos, havia aqueles que eram 100% a favor, que coordenavam todo o esquema e que influenciavam / convenciam / forçavam os demais a engajar. Neste extremo estava Lance Armstrong. Entre o Lance e algum atleta que tenha optado por não fazer parte (quem?), havia outros perfis:

  • Aqueles que, vendo-se em desvantagem, não quiseram ficar pra trás.
  • Aqueles que não queriam fazer parte, mas vendo todos fazerem, resolveram fazer parte.
  • Aqueles que, vendo a banalidade do uso, não achavam que havia qualquer problema.
  • Aqueles que travaram enormes batalhas interiores, tentando resistir, mas acabaram cedendo: ou por desistirem ou por entenderem que era uma condição para estar ali ou por ameaça.
  • Aqueles que se arrependeram e se afastaram do esporte.

No final das contas, podemos dizer que quem usou, usou e acabou. É uma forma mesmo de ver. Mas será mesmo que é tudo igual? Debati um pouco qual seria a tensão correta entre coerência e tolerância no post “Qual é a tensão certa entre coerência e tolerância?”. O fato de discordar veementemente do uso de substâncias para melhoria de desempenho me obrigariam a condenar de igual maneira todos aqueles que se dopam. Mas não é assim que me sinto em 100% dos casos! Isto valeria um post mais filosófico. Vamos à prática!

O que se busca com o doping? Uma “modificação genética”. Por não ser da área, vou me dar o direito de usar esta expressão com “liberdade poética”. As pessoas são diferentes entre si e o conjunto destas diferenças compõem uma maior ou menor pré-disposição a determinada atividade ou esporte. O que eu acredito que seja algo “genético” ou fruto da evolução de uma pessoa:

  • Força
  • Resistência
  • Destreza
  • Funcionamento do organismo
  • Capacidade de adaptação
  • Resiliência
  • Capacidade de concentração
  • Inteligência
  • Determinação
  • Ambição
  • Competitividade
  • Capacidade de recuperação
  • Tolerância músculo-esquelética ao esforço
  • Produção e tolerância ao lactato
  • Capacidade de suportar dor

O doping ajuda em diversas frentes. Estudando o tema descobri que ser pego na competição é fruto de má sorte e/ou má orientação. As “drogas” tendem a viabilizar o treinamento de alto rendimento, ajudar na recuperação, aumentar a tolerância ao esforço para que se atinja picos de performance inalcançáveis, para esta mesma pessoa, sem doping.

sonhar-com-acusacaoQual é o papel das organizações antidoping e como seria possível impedir o doping? Eu acredito que as pessoas são freadas por duas coisas: (1) valores pessoais e (2) medo.  Algumas pessoas jamais fariam determinadas coisas por serem radicalmente conflitantes com seus valores pessoais. Outras pessoas não fariam por medo, normalmente, associado a serem descobertas, expostas, punidas.

lance5.jpg_95O Lance parece estar numa categoria à parte, a dos sociopatas. Estes não têm qualquer tipo de receio, culpa, medo. A maioria das pessoas não está nesta categoria. O que está faltando? A presença do medo! Acredito que medidas muito mais severas devessem ser aplicadas aos atletas que fossem pegos, mas não apenas restritas a eles.

Atletas, patrocinadores, equipes, médicos, treinadores, clubes: todos deveriam ser punidos. Isto geraria uma autorregulação, uma vez que os atletas, ao invés de incentivados a se dopar, seriam cobrados a não se dopar. Empresas seriam mais criteriosas ao apoiar um atleta, clubes ao convidar membros para suas equipes. Por que não prender atletas por doping?

Enquanto não houver uma forma mais eficiente de combate ao doping, que faça com que as descobertas sejam escândalos e não constatações do que já se é sabido, estaremos colocando em risco a vida de vários atletas, inibindo a entrada e/ou permanência daqueles que não estão dispostos a fazer parte a qualquer preço. Muitos vêm em defesa daqueles que são pegos dizendo que “não adianta nada se dopar e não treinar, que é necessário muito treino”. Mas é claro! Isso é o básico! Treinar e aguentar tudo o que envolve o esporte faz parte da profissão atleta.

O passaporte biológico parece ser uma excelente forma de aumentar o controle de doping. Tenho ainda uma dúvida, já li que uma vez tendo usado drogas para melhoria de desempenho, nunca mais voltasse ao ponto de partida, ou seja, alguns benefícios são carregados pra sempre. A dúvida é se este acompanhamento começa tarde, ou seja, depois que um determinado atleta já realizou um ciclo, ele não sairia em vantagem, mesmo com o passaporte?

Uma coisa é certa: coletas de sangue e o monitoramento deveriam ser estudadas e acompanhadas por anos e anos. Certamente, se a medicina hoje não é capaz de fazer a detecção de determinada substância, ela pode avançar e ser capaz amanhã. Aqui vale o “antes tarde do que nunca”. E, de alguma forma, o atleta trapaceiro deveria pagar alguma coisa àquele que foi prejudicado.

 

Voltando à pergunta do post, dopados são trapaceiros ou vítimas? 

Começo dizendo que, de forma alguma, acho que deva ser retirada a culpa do atleta no envolvimento com seu doping. Por outro lado, dado o contexto do doping, a decisão seria não ser atleta de alto rendimento, uma vez que há a crença instituída de que “todos se dopam” e/ou para realmente competir em alto nível doping é mandatório.

Parece-me um beco sem saída àqueles geneticamente favorecidos e que “jamais” se dopariam, restando-lhes apenas duas alternativas: ou não engajarem no esporte de alto rendimento ou estarem fadados a não chegar ao lugar mais alto do pódio, aguardando que o futuro prove quem estava competindo de forma honesta.

9662128Termino fazendo a afirmação de sempre: que sorte eu tenho de ser pangaré! Apesar de que, até pra pangaré a vida está difícil, dado do número de amadores dopados! Este será o tema do próximo post, “O doping profissional dos amadores”!

E você? Diga aí, qual é a sua opinião? O que fazer? Como combater?

Comentários

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2 Responses

  1. Gabriel says:

    Boa tarde Aline.

    Tenho por certo que o doping fere frontalmente o espírito esportivo. Vejo como justificável em casos
    de guerra ou sobrevivência ou religiosos. O que passar disto é ilegal, imoral ou fere liberdades.
    Infelizmente o antidoping funciona mais ou menos como as vacinas e os antivírus de informática, primeiro
    o mal depois o antídoto. Estamos sempre correndo atrás da máquina. Continuarão a existir os escândalos, as frustrações e as indignações.

  2. Pedro Ruhs says:

    DOPING

    O QUE É PRECISO PARA SER UM EXTRA-CLASSE?

    Tendo como princípio (por hora, utópico) que o doping não existe, eu dividiria em dois grupos de fatores aqueles que são necessários para atingir a excelência no esporte de alto rendimento: os intrínsecos e os extrínsecos.

    O fatores intrínsecos seriam o DNA, a força mental e o treinamento. Por DNA entende-se a predisposição física nata que o indivíduo tem para se transformar numa estrela esportiva de sua modalidade. Exemplos simples seriam a altura para jogadores de basquete, vôlei e ginástica artística. Proporções entre tronco e braços e pernas para judocas e levantadores de peso. Quantidades de fibras musculares vermelhas e brancas para velocistas e atletas de endurance. Basta olharmos para qualquer evento esportivo de vulto para percebermos como a seleção natural atua nesses casos.

    O que chamo de força mental pode ser ainda subdividida em dois tipos, aquela que permite ao atleta suportar todas as vicissitudes de anos de treinamento intenso e aquela que permite ao atleta suportar as pressões do ambiente de competição. Pessoalmente conheci atletas que suportavam tudo o que se lhes atirasse como objetivo de treinamento sem reclamar, mas que em competições nunca conseguiam performar com a mesma qualidade dos treinamentos. Já outros, apesar de também treinarem bastante, em competições, sempre eram capazes de produzir “algo mais”. Vi ainda um terceiro tipo muito raro de força mental: a dos atletas que, sabendo-se do primeiro grupo, treinavam conscientemente ainda mais, pois para ganhar, teriam que fazê-lo com performances beirando 70% ou 80% do que conseguiam fazer em treinamentos. Obviamente que o extra-classe não apenas tem a força mental para os treinamentos com para a competição e, além disso, sabe sopesar quando eventualmente só precisa de 70% de esforço para ganhar.

    Quanto ao que chamo de treinamento, alguns poderiam argumentar que este fator beira o que abaixo indicarei como extrínseco. E eles não deixam de ter alguma razão. Em minha defesa, gostaria de ressaltar que o que indico neste tópico como treinamento não seria a qualidade do mesmo, mas a quantidade. É preciso dos dois para sermos um extra-classe, mas como fator intrínseco, eu diria que não é possível ganhar uma medalha olímpica em muito, muito, muito treino.

    Os fatores extrínsecos estariam relacionados com a existência de infraestrutura física, de materiais e técnica, por um lado, e programas político-financeiros em níveis locais, regionais e/ou nacionais, de outro.

    A não ser por exceção, não dá para criar grandes atletas sem ginásios, piscinas, aparelhos de suporte, bolas, barcos, raquetes, bicicletas, etc, tanto voltados para a aprendizagem, como para o desenvolvimento, como para a competição. Também não dá para fazê-lo sem técnicos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, enfim, estudiosos do desenvolvimento de práticas de treinamento esportivo (qualidade do treinamento).

    Programas político-financeiros seriam as instituições (público e privadas atuando em sintonia) que permitem a massificação dos esportes de modo a que possamos, num primeiro momento, identificar as potencialidades esportivas dos indivíduos ao mesmo tempo que, num segundo momento, criam as condições financeiras para a sustentabilidade a curto, médio e longo prazo de todo o projeto econômico do profissionalismo esportivo. Há que se originar a receita para sustentar todo o processo contínuo da criação de grandes atletas extra-classe, que, por sua vez, revigoram como “heróis” que são, as grandes massas.

    Para mim, entram para o rol de atletas extra-classe Michael Phelps, Michael Jordan, Pelé, Jesse Owens, Sergey Bubka, Usain Bolt, Koichi Uchimura, César Cielo, Pete Sampras, Roger Federer, Bobby Jones, Tiger Woods. Com certeza existem muitos mais e, possivelmente, estou errado em enumerar alguns dos acima indicados. Mas até onde pude perceber, esses atletas nasceram com o DNA certo, souberam desenvolve-lo com ou sem ajuda durante horas infindáveis de treinamento e tinham (tem) uma força mental invejável.

    É minha opinião, entretanto, que podemos atingir relevância esportiva, e até medalhas olímpicas, mesmo sem termos todos os requisitos intrínsecos ou extrínsecos para isso. Penso no Ricardo Prado que não tinha a altura “certa” para ser campeão mundial, no Romário, que nunca gostou de treinar, no Abeb Bikyla que ganhou uma maratona olímpica correndo descalço, no João do Pulo que treinava em pistas de terra, entre outros.

    UMA ANÁLISE HOLÍSTICA

    Eu fui atleta de alto rendimento por quase vinte anos da minha vida, entre 1973 e 1983. Naquela época muito mais que a discussão sobre doping, o que existia era a luta pela prevalência do amadorismo sobre o profissionalismo como representante real do “espírito esportivo e olímpico”.

    Em princípio, e por um bom tempo, usando basicamente os mesmos argumentos que a WADA usa hoje para defender o controle de doping, as instituições esportivas entendiam que os profissionais não se adequavam ao chamado “espírito do esporte”, ou ao que se define como a “preservação do que é intrinsecamente o valor do esporte” (World Anti-Doping Code, p. 16).

    Naquela época, décadas de 60 a 80, o que víamos, principalmente nas Olimpíadas, foi, de um lado, os países do bloco comunista afirmando que seus atletas eram amadores, pois segundo as leis internas, o profissionalismo era proibido. Na realidade, entretanto, o que havia era uma massificação dos esportes (isso era bom) com o objetivo de identificar atletas mais aptos de modo a integrarem programas especiais de desenvolvimento. Nesses programas, todos os potenciais atletas passavam a ser funcionários públicos – policiais, bombeiros, soldados, etc – com status quo de estrelas e nenhuma outra obrigação que não fosse a busca por medalhas. E mais, como não era o tópico na linha de frente das discussões, o doping, seja por substâncias, seja por métodos, seja pela combinação dos dois, era praticamente liberado. Pior, por absoluta falta de controles, deixou uma legião de pessoas com sérios problemas de saúde e psicológicos.

    De outro lado, tínhamos os países do ocidente, que não querendo ficar para trás buscaram maneiras, a meu ver, tão hipócritas quanto os comunistas para mascarar o profissionalismo. Exceto pelo fato de que, em algum momento, esses atletas assumiam de fato seu profissionalismo e davam adeus à carreira olímpica. Jogadores de basquete, hóquei, futebol, corredores de maratona, 100m rasos, nadadores, ginastas, etc, sem receber dinheiro diretamente, assim como os comunistas, tinham todas as condições para treinarem sem preocupações a fim atingirem o sonho da medalha olímpica em suas universidades e centros de excelência esportiva. No caso destes, era um objetivo rumo ao profissionalismo. Se ganhavam a medalha, ao retornarem, conseguiam os melhores contratos publicitários e/ou junto a equipes profissionais. Para os comunistas que não conseguiam (ou não podiam pedir) asilo, a garantia era de uma aposentadoria rica para os padrões locais.

    Eu só posso imaginar o que se passou nos corredores da política esportiva, mas o fato é que não demorou muito e o “espírito do esporte” foi convocado a entender que o profissionalismo não afetava a sua essência.

    Mais ou menos por essa época, o novo vilão passou a ser o doping. A morte de ciclistas no Tour de France (e outras voltas), as nadadoras alemãs orientais, as ginastas russas, eram exemplos gritantes de que havia um conflito entre o “mens sana, in corpore sano”. Toda uma estrutura passou a ser construída para, a meu ver, proteger a saúde dos atletas (louvável) e para tentar manter uma igualdade de condições entre os competidores (utópico).

    FAZENDO UM LOOP

    Mais uma vez, na minha opinião, com o profissionalismo foi criado todo um novo conceito de entender-se o esporte. Se ele ainda mantém para as grandes massas o objetivo da qualidade de vida (saúde), para os profissionais do meio (atletas, técnicos, agentes, empresas esportivas) passou a ser uma mercadoria como outra qualquer que precisa ser vendida da melhor maneira possível.

    Exemplo. O triatleta profissional treina e compete para ganhar suas competições a fim de aumentar suas possibilidades financeiras (patrocínios) e receber o reconhecimento pelas suas qualidades atléticas. Por sua vez, suas qualidades atléticas são usadas como inspiração para as massas e, por consequência, para vender uma infinidade de produtos esportivos (inclusive a transmissão e ingressos para os eventos).

    O projeto político-econômico, conforme mencionado anteriormente, precisa da massificação para facilitar o trabalho da identificação de novos “heróis”, mas também precisa da massa para financiar os diversos negócios que giram em torno do esporte de alto rendimento hoje em dia.

    Nesse sentido, acredito que temos dois grandes grupos de financiadores do business esporte hoje em dia (que não são necessariamente excludentes): aqueles que gostam de assistir esportes como um espetáculo; e, aqueles que gostam de praticar os esportes pelos quais se identificam (seja por prazer, seja por influência dos “heróis”, seja por ambos).

    Se isso for verdade, tenho a impressão que a liberação do doping não causaria efeitos ao consumo esportivo do primeiro grupo. Para o segundo grupo, também não, desde que se reorientassem as campanhas de marketing.

    BACK TO THE BASICS

    Premissa básica para a implementação de qualquer regra é a possibilidade de sua aplicação e fiscalização.

    Para mim, apesar de louvável e bastante sério, o trabalho da WADA e de outras instituições movidas pelo mesmo objetivo, é de difícil aplicação e impossível fiscalização.

    Por mais que tentem, são apenas poucas instituições (com recursos limitados) correndo atrás de um universo muito maior de interessados (com recursos virtualmente ilimitados) em pesquisar novas substâncias e procedimentos para, dentro de regras ainda não explicitamente escritas, atuar na “zona cinzenta”, garantindo para seus atletas uma vantagem comparativa.

    Além disso, em função da disseminação do conhecimento, e das formas de mantê-lo ao largo das fiscalizações, as vantagens comparativas entre os atletas tendem a ser mínimas (ainda mais considerando todas as variáveis intrínsecas e extrínsecas mencionadas anteriormente).

    Ou seja, vamos imaginar um mundo em que, assim como o profissionalismo, o doping passasse a fazer parte do “espírito do esporte”. Assim, poderíamos entender o que a WADA menciona na página 16 do World Anti-Doping Code, no capítulo sobre Fundamental Rationale for the World Anti-Doping Code da seguinte forma (texto original com meus comentários em itálico):

    Anti-doping programs seek to preserve what is intrinsically valuable about sport. This intrinsic value is often referred to as “the spirit of sport”. [Tentei demonstrar que estamos numa situação de eventualmente ter que entender que doping não afeta o espírito do esporte.] Is the essence of Olympism, the pursuit of human excellence through the dedicated perfection of each person´s natural talents. It is how we play true. [A não ser por exceção, acredito ter demonstrado que independentemente do doping ou não, os talentos naturais de uma pessoa somente serão atingidos se uma outra quantidade grande de variáveis for considerada. Nesse sentido, o doping poderia ser apenas mais uma variável.] The spirit of sport is the celebration of the human spirit, body and mind, and is reflected in values we find in and through sport, including:

    • Ethics, fair play and honesty
    [Se o doping perder seu estigma e todos puderem fazer uso dele como fazem de suplementos alimentares, este valor estaria preservado.]
    • Health
    [Muitas das substâncias e métodos proibidos não fazem mal a saúde, principalmente se tomados conforme a orientação de médicos e técnicos responsáveis. Acredito que sua regulamentação permitiria aos atletas maior informação sobre o tema e menos sujeição a abusos pelos “gerentes” de suas carreiras. Ademais considerando os objetivos econômicos, os “heróis” precisam passar a ideia de continuidade, melhor ainda, de lendas vivas. Nada pior para o projeto econômico que o atleta morra durante a prova. Por outro lado, é preciso ficar claro que, independentemente do doping, nenhum esporte de alto rendimento é realmente saudável.]
    • Excellence in performance
    • Character and education
    • Fun and joy
    • Teamwork
    • Dedication and commitment
    • Respect for rules and laws
    • Respect for self and other participants
    • Courage
    • Community and solidarity
    [Nenhum dos demais itens acima, acredito eu, seria influenciado pela liberação do doping, como também não o são pelas leis anti-doping.]

    E mais adiante, no mesmo documento, página 20, em Article 1 – Definition of Doping, a WADA entra em um detalhamento muito elaborado de como definir e identificar situações de doping. O problema é que mesmo eu que sou apenas um curioso da matéria percebo circunstâncias em que atletas podem vir a ser prejudicados sem necessariamente terem agido de má-fé, assim como outros podem se beneficiar.

    O passaporte esportivo, apesar de ajudar, pode diferenciar desequilibradamente atletas que entram para o nível de “pesquisáveis”. Isso sem falar que não fica claro a situação de uma real evolução das métricas, pois pessoas respondem diferentemente aos treinamentos e ainda não existem parâmetros e estudos longitudinais confiáveis.

    Sobre a lista de substâncias e métodos proibidos me parece consistente com a ideia original da instituição, mas posso quase garantir que hoje, preparando-se para a Olimpíada do Rio, temos um sem-número de atletas fazendo uso de substâncias e métodos que ainda não fazem parte da lista.

    No geral, também não gosto da situação de a WADA se dar o direito de, em última instância, se auto proclamar como instância final para dirimir os casos potencialmente identificados como doping.

    CONCLUSÃO

    Esse texto carece de objetividade científica e não poderia ser de outra forma pois não tenho nenhuma qualificação técnica. Entretanto, passei boa parte da minha vida no meio esportivo de alto rendimento e presenciei muitas situações.

    Além disso, e apesar de tudo, sou um entusiasta do esporte. Qualquer um. Gosto de ler sobre o tema e ao longo de pelo menos 35 anos acho que juntei uma bibliografia de algum valor.

    Em retrospecto, para falar de um dos casos mais notórios de doping, continuo achando os feitos de Lance Armstrong como atleta fatos marcantes de superação dos limites humanos. Mas como pessoa, como “herói” que devia inspirar as massas, ele falhou miseravelmente. E estou convicto, que mesmo que as circunstâncias fossem outras, ou seja, já vivêssemos numa era de liberação do doping (EPO, no caso dele), outras atitudes o teriam levado ao mesmo ostracismo: é um problema de caráter.

    Acredito que a luta contra o doping também ajudou muito no esclarecimento dos perigos (inclusive de vida) que o uso abusivo de algumas substâncias e métodos para a melhoria da performance podem trazer. Acho, entretanto, que hoje em dia esse propósito já está sedimentado. Acredito, também, que ajudou nessa sedimentação de conhecimento a profissionalização não apenas dos atletas, mas do esporte como um todo.

    Nesse sentido, a luta anti-doping para mim é muito mais um enorme desperdício de dinheiro, estudos e esforços que poderiam estar sendo melhor utilizados de outra forma.

    De modo geral, eu já fui contra o profissionalismo do esporte, depois passei a ser favorável. Já fui contra o doping, e hoje já não vejo tantos problemas, apesar de, por sua complexidade técnica, achar que precisa de uma regulamentação que não impeça sua evolução, mas previna os eventuais abusos contra a saúde.

    Penso que não é objetivo do esporte de alto rendimento fomentar a igualdade, mas premiar da capacidade máxima atingível por um ser humano a partir de suas individualidades físicas e psicológicas e do processo que o permitiu atingí-las.

    Por fim, queria registrar que os melhores exemplos de atletas que conheci foram aqueles que ganhavam de si mesmos. E em tendo isso como objetivo, muitas vezes também se tornaram atletas extra-classe.

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