Eu acredito no impossível: um ensaio sobre força de vontade

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will-power1-300x225Fui convidada a escrever sobre força de vontade, não pensei duas vezes e aceitei! Ouço com bastante frequência que sou uma pessoa com muita força de vontade, imaginei que seria fácil falar sobre isso. Comecei a pensar no que eu abordaria sobre este tema e deparei-me com meus próprios questionamentos sobre (1) o que seria de fato a força de vontade e (2) o que simbolizaria uma pessoa como “dona” desta característica. Depois de uns dias pensando neste assunto, consegui estruturar alguns pontos. Está na hora de começar a discussão!

Na contramão de boa parte dos livros de autoajuda, o título deste post já sinaliza a minha leitura da vida: o impossível existe. Vixe! E todo aquele blá blá blá de que os seus limites é você que se impõe? E a poética frase “não sabendo que era impossível, foi lá e fez”? Eu não concordo totalmente com elas. Não mesmo! E não tenho dúvidas que a crença nestas frases nos impõe um peso e uma ansiedade muito cruéis, lançando-nos na sensação de fracasso, incompletude e infelicidade.

Eu definiria força de vontade como o volume de energia que alguém está disposto a colocar em algo para um determinado fim. Vou usar a realização de uma maratona como exemplo para apresentar algumas questões. De forma geral, as pessoas que desejam correr uma maratona passam por um ciclo de treinamento bem característico: uma sequência de semanas de treinos longos até que a prova se aproxima. Alguns treinadores mais arrojados, fazem volumes globais maiores, outros mais conservadores fazem volumes menores, mas o comum é que todos percorram um aumento de volume nos longos de final de semana.

Uma vez li um treinador dizendo “qualquer um pode fazer uma maratona sub-3”. Putz. Aquilo foi um soco no meu estômago. Porque na sequência ele dizia “se quiser muito e se treinar para isso, vai fazer”. Ele é um treinador bem conhecido e a publicação foi numa revista de corrida. Fiquei remoendo porque (1) ou eu sou frouxa, indisciplinada, tenho um treinador incompetente e qualquer coisa relacionada a isso, (2) ou não é bem assim e há mais coisas que fogem do nosso controle que impactam diretamente, como a genética.

forçaNa chegada da minha primeira maratona, felicíssima por ter feito “incríveis” 4h24, encontrei um professor da academia com a medalha da prova. Perguntei a ele como tinha ido, ele falou que foi bem, veio tranquilo, fechando em 3h30. Nossa! Pra mim até hoje um baita tempo! Aí comentei que não sabia que ele corria, ele respondeu que realmente não corre, só dança. Oi? Pois é, ele dá aula de Zumba, viaja pelo mundo dando aulas de Zumba. Nunca corre. Não treina. Fez 3h30. Difícil pensar que há igualdade de condições entre nós, que basta eu querer e treinar direito. Um dado talvez não tão desprezível: o pai dele teve importante participação no atletismo nacional. Seria genética uma boa resposta?

Para sair do esporte: será que se um dia eu resolver me empenhar e estudar, treinar, praticar canto, vou me tornar um fenômeno musical? Quem já viu criancinhas de 4-8 anos com vozes poderosas acredita de verdade que foi “treino”? Será? Aquele livro bacana, “Fora de Série” (acho que em inglês foi “Outliers”) aborda bastante as conquistas pela prática consciente de determinada coisa. Acho que é um caminho.
little-girl-singingQuando se fala de feitos que destoam da média ou do que nós mesmos seríamos capazes de realizar, tendo a achar que há dois grandes caminhos de explicação: uma enorme influência de uma super facilidade para tal feito e uma gigante força de vontade na busca de tal feito. Certamente, há a junção destas coisas, o que se torna realmente um super destaque / marco.

O meu ponto em relação ao impossível é que uma pessoa com facilidade para algo e que seja dona de uma grande força de vontade jamais poderá ser objeto ou referência para uma pessoa que só tem uma coisa ou outra. Esta facilidade pode ser mental ou física. Para pessoas donas de uma força de vontade inabalável, assumir que há limites é difícil demais. Como sobressair em relação à média é bem factível quando se põe mais energia que os demais, estas pessoas estão habituadas a se destacar. Isso não faz delas “imbatíveis”, muito menos capazes de realizar qualquer coisa.

Meu médico do esporte vive repetindo pra mim que eu nasci com uma cabeça mais forte que meu corpo, o que seria a razão de boa parte das minhas lesões. A minha tolerância a dor e capacidade de adaptação a ela me fazem (faziam, estou melhorando) seguir até dar problemas mais sérios. Aguento treinar alto volume, mas com alta intensidade a lesão vem. É assim há anos! E hoje em dia faço raros treinos intervalados. Quando os faço, os tiros são longos, menos intensos do que poderiam. É assim que o “conjunto” Aline aguenta.

Lidar com limites é desagradável. Imagina que coisa deprimente é explicar para um novato na corrida que, mesmo correndo há 12 anos, ele já corre mais rápido que eu? Noutro dia, um menino chegou na assessoria e fez os primeiros 10k da vida pra 36′. Dá vontade de chorar.

Limites são flutuantes ao longo do tempo! Alguém que corre 10k pra 40′ e fica parado por 5 meses em função de uma fratura por stress, quando retorna, faz 10k em 45′, por exemplo. Naquele instante, 10k pra 40′ é impossível. Neste caso, talvez, seja temporário.

Para complicar ainda mais, há limites que são mesmo conseqüências de prioridades, uma impossibilidade condicional. Impossível, dadas as circunstâncias.

Bem, falamos das impossibilidades absolutas (eu acredito nelas), nas impossibilidades temporárias e nas impossibilidades condicionais. Vamos à força de vontade! Eu também acredito que isso é uma característica que compõe uma pessoa, ou seja, há diferença no volume de força de vontade que alguém é capaz de fazer. Acredito que uma pessoa possa desenvolver, mas também acredito que, assim como uma facilidade para a música ou para um esporte, alguém tenha mais facilidade para uma alta força de vontade que outra pessoa.

Tudo isto posto, qual é o grande X deste papo todo? Conseguir discernir entre (1) o limite existe, (2) o limite é temporário, (3) o limite é condicional, (4) o volume de força de vontade pode ser desenvolvido. Quando nos deparamos com “não conseguir fazer algo”, deveríamos pensar o que de fato está acontecendo.

E a grande dificuldade será, para quem tem enorme força de vontade, aceitar que haja um limite real. Para quem tem espaço para desenvolver força de vontade, a dificuldade será se empenhar em desenvolvê-la, sendo mais fácil acreditar no impossível.  

Saber o ponto certo entre limite e falta de força de vontade é onde reside esta questão. Acreditar que é impossível paralisa. Acreditar que é possível impulsiona até o limite… Uma vez nele, no limite, paralisa e joga pra baixo! Quem sobrevive muito tempo colocando um volume enorme de energia sem que haja progresso?

Na sua vida, onde é que estão suas dificuldades? Está pensando para acreditar no impossível ou para desenvolver a sua força de vontade?

 

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1 Response

  1. Bia says:

    Tive que falhar diversas vezes até realmente ter uma vontade real de conquistar as coisas que desejei, ai descobri que o comprometimento vem junto com a força de vontade.
    Excelente texto, excelente site! Obrigada por dividir suas idéias.

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