Unogwaja Challenge 2016: realização de um sonho

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Fazer o Unogwaja Challenge 2016 foi a realização de um sonho. Foram 1650k de bike em 10 dias e finalizamos no 11º dia correndo a Comrades Marathon, 89k. Venho tentando compartilhar o que eu vivi nestes 11 dias de Unogwaja com meus amigos e família. Tem tanta coisa pra contar, tanta coisa vivida, que não sei se conseguirei transmitir a dimensão de tudo o que aconteceu. Sair de Cape Town me deixou um vazio enorme. Não tenho mais como voltar pra minha vida e minha rotina de antes. Tenho trocentas perguntas, trocentas reflexões e também acho que tenho algumas respostas.

13403876_10153451014661986_1655697176279859609_oNão tenho mais como voltar para minha vida e minha rotina de antes porque já não sou mais a mesma pessoa. A jornada que vivi em 11 dias, os dias que antecederam e os posteriores trouxeram mais vida à minha vida, mais esperança e força aos meus sonhos mais profundos, aumentaram a minha crença no ser humano, reforçaram meus valores pessoais de companheirismo, lealdade.

13319906_10153451030346986_2734666985866276079_nEstes 11 dias despertaram o melhor de mim, propiciaram que eu fosse quem sou, que eu aceitasse cada um do jeito que são. Nestes 11 dias de Unogwaja, reconheci minha segunda família. Digo reconheci porque é como se eles estivessem da minha vida desde sempre, só faltava esbarrar com eles pela vida.

No aeroporto, voltando pra casa, fiquei meio congelada, parada, pensando se sou mesmo merecedora de tanta riqueza. Como posso ser merecedora de tudo isso? Tanta saúde, tanto amor em casa, tanta generosidade dos meus amigos ao longo da minha vida e, agora, soma-se a isso tudo uma segunda casa, uma segunda pátria, uma segunda família.

Há uns anos vivi uma experiência muito forte, propiciada pela empresa para a qual eu trabalhava (SHV | SuperGasBras): eu e mais 10 pessoas do mundo todo vivemos intensamente uma imersão na Bélgica para desenvolvimento de habilidades pessoais e “team building”. Ao longo de alguns meses, diversas atividades “extremas” fizeram com que a gente se conectasse de forma singular. Meus amigos de RH e os executivos saberão exatamente como isso funciona.

13331133_10153451028601986_5598513050448236453_nAntes do Unogwaja, esta havia sido a experiência mais transformadora da minha vida. Mas passa ao largo do que é o Unogwaja Challenge. Pensando em como explicar para quem estava de fora a conexão que se criou entre nós, achei um caminho. Acho que a melhor forma é comparar aos laços criados em situações extremas e de grandes dificuldades (guerras, sobrevivência, catástrofes) em que pessoas que compartilham da experiência jamais se distanciam pelo resto de suas vidas. É também um pouco do que acontece (acredito eu) com militares durante seus treinamentos extremos.

13323598_10153451013806986_7227551812460371626_oObviamente, não passamos nem perto de uma situação “catastrófica”. Mas quem faz esporte de endurance sabe do que ele é capaz de fazer, tanto física como mentalmente. Ao longo dos 10 dias de pedal, onde pedalamos 1650k com 19.500m ascensão, cerca de 8-10h por dia, onde dormimos juntos e fizemos as refeições juntos, compartilhamos de tudo. Tudo muito intenso. Houve dias em que dormimos acampados, fizemos refeições no meio da estrada, compartilhamos chamois (pra quem não pedala, trata-se de um produto pra passar “lá” e diminuir as assaduras do banco da bike), fizemos xixi na estrada.
13423940_10153800465177746_6712163771904488479_nPois é. Não tem banheiro na estrada! Não ao longo dos 1650k dos 10 dias. Só pra ilustrar e dar uma noção do que era isso: usamos bretele! Mulher de bretele pra fazer xixi significa tirar toda a parte de cima (casaco, camisa, corta-vento) para então tirar as alças do bretele e, finalmente, arriar o bretele. Então era só achar um lugar mais reservado. Ao menos, diante dos olhos dos demais porque nada impediria um carro vindo pela estrada de flagrá-la naquele momento.

Pra quem torceu o nariz, assim como eu fiz no começo, eu afirmo: rapidinho você perde a vergonha. Diante da necessidade, estas coisas “morais” perdem o sentido. Bem verdade que teve alguns (algumas) mais à vontade que outros! Hahahaha… De forma geral, passar chamois batendo papo com os amigos virou coisa corriqueira!

imageSoma-se a este convívio e intimidade, a atividade em si. 8-10h pedalando | correndo fazem com que passemos por um conjunto de pensamentos e emoções absurdamente variados e intensos. Passamos por momentos de extrema felicidade, de incerteza, de bem-estar, de dor, de vontade de não parar nunca, de vontade de parar naquele instante. Ao longo dos dias, experimentamos muita coisa. Muitas vezes, ao longo do mesmo dia.

Vivenciar isso tudo sozinho já é insumo pra muita reflexão, amadurecimento, aprendizado, evolução. Só que fazer isso na presença de pessoas, compartilhando, impactando e sendo impactado pelas pessoas eleva isso a um volume de situações absurdo. A endorfina e os hormônios ainda dão uma pitada extra a isso tudo.


imageSó que eu não estava na presença de quaisquer pessoas!
Eu estava na estrada com os Unogwajas! Estávamos ali juntos, para realizar este desafio juntos. Pessoas de diversos locais do mundo, de origens distintas, que compartilham de muitos valores pessoais e que estavam ali por uma mesma causa, além de serem pessoas que têm a bike e a corrida em suas vidas. Sem qualquer dúvida, estas semelhanças profundas de valores pessoais e de estilo de vida (esporte) fizeram com que nos tornássemos amigos de infância em pouco tempo.

O esporte expõe as fragilidades e as fortalezas, coloca em evidência quem somos na essência. Compartilhar tantas horas na estrada (quase 80h de pedal) com estas pessoas fez com que nos conhecêssemos profundamente. Ao final de alguns dias já sabíamos a melhor forma de funcionarmos juntos. Todos dispostos a explorar o que cada um tinha de melhor e a apoiar as fraquezas de cada um de nós.

13415432_10153451014031986_7028912514012515226_oChoramos juntos de alegria ao ver o dia nascer. Sofremos juntos nos dias mais duros de pedal. Rimos uns dos outros. Brincamos, cantamos, nos abraçamos. Apoiamos e fomos apoiados. Senti-me à vontade para me expor, para expor quem sou, para falar das minhas forças e das minhas fraquezas. Impressionante como não tivemos qualquer tipo de melindre de expor nossas fraquezas nem de apresentar onde podíamos ser mais úteis.

Toda a jornada da bike é amparada e cuidada por uma equipe de apoio sem igual. Pessoas que fizeram com que nós só nos preocupássemos em pedalar. Além de toda a logística de alimentação, hospedagem, apoio na estrada, esta equipe cuidou de cada detalhe. Todos os dias, acordávamos com o café da manhã já servido. Todos os dias fomos recebidos nos destinos com bilhetinhos carinhosos e um presentinho. Coisas que não tem preço nem terei como retribuir. Tudo isso orquestrado por uma pessoa única, o Stoff! Ele merece toda a nossa gratidão por ter zelado pelas nossas vidas na estrada com uma seriedade que nunca vi igual.

imageNo caminho de Cape Town para Pietermaritzburg de bike, um dos dias mais marcantes foi quando passamos por criancinhas indo para escola. Estava bem frio e as crianças estavam indo pra escola de diversas formas: nas caçambas de carros, em ônibus e correndo. Lembro-me de umas estarem de short (bem possível que por falta de opção) e eu internamente reclamando do frio. Momento de grande reflexão… 

No penúltimo dia do pedal, enfrentamos a montanha mais dura do percurso! Ao chegar lá em cima, o meu mentor, a pessoa na qual me inspirei para fazer o Unogwaja, o embaixador da Comrades no Brasil, Nato Amaral, apareceu por lá para nos receber e nos encher de emoção. Comemoramos demais a chegada ao topo desta dura montanha! Mal sabíamos que ainda havia muita montanha pela frente! Hehehehe… Foi unânime a alegria de ver Nato na estrada!

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imageA chegada do pedal no 9º dia foi super emocionante porque era o último dia longo. Já estávamos comemorando o sucesso da parte do pedal! E também já estávamos sentindo que seria muito difícil nos despedirmos uns dos outros. A sensação de que estava chegando ao fim era boa e “ruim” ao mesmo tempo.

No último dia do pedal, fomos recepcionados em Pietermaritzburg pelas criancinhas da Umsilinga Primary School, uma das entidades apoiadas pelo projeto. Ver todas aquelas criancinhas de meias vermelhas eufóricas com a nossa chegada, além de todos os amigos e familiares dos Unogwajas foi algo indescritível. Fomos cantando pelas ruas de Pietermaritzburg, próximo à largada da Comrades, junto com as crianças.

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imagePara fechar com chave de ouro este turbilhão de emoções e de aprendizado, nada mais fantástico que fechar com a ultramaratona mais especial do mundo, a mãe das ultras: a Comrades Marathon! Já tinha corrido a Comrades em 2011 e sabia bem o que me esperava. A Comrades merece (e terá!) um relato à parte.

Um breve resumo da Comrades: 89k com cerca de 20.000 pessoas na prova, pessoas torcendo e dando apoio ao longo de todo o percurso, infraestrutura surreal, com pontos de hidratação | alimentação absurdamente frequentes, chegada em estádio com plateia gigante. Prova com 12h de limite com a clássica contagem regressiva e tolerância ZERO com o estouro de tempo. Os famosos cut off ao longo do percurso sinalizam o tempo todo que se você “der mole” não conseguirá fechar a prova no tempo.

Para celebrar o Unogwaja e a Comrades, fui abençoada com a presença do Dale e do Brundle de um determinado ponto da Comrades até a linha de chegada.

 

Brundle é a pessoa mais engraçada e risonha que já vi na vida. Está sempre sorrindo e fazendo piadinha. Muito gente boa! Foi brincando com a plateia, fazendo graça o tempo todo!

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E o Dale… Sabe quando você conhece uma pessoa que parece que faz parte da sua vida desde sempre? Foi assim com ele! Durante o pedal, morremos de rir das coisas mais idiotas, compartilhamos músicas, celebramos o nascer do sol. Tê-lo encontrado na corrida foi um presente que a vida me deu que jamais terei como agradecer!

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Dá uma olhada na emoção da chegada da Comrades!!!! WOW

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Clássico: Brundle sorrindo | Eu e Dale emocionadíssimos na chegada da Comrades Marathon

O Unogwaja trouxe pra mim a certeza absoluta que a beleza, a leveza, a energia boa, os bons corações, o espírito de equipe, a preocupação com o outro, o cuidado, o carinho, a esperança, a confiança, a lealdade, o amor existem e estão espalhados pelo mundo. É preciso estarmos dispostos a entrar em contato verdadeiro com o outro, buscar despertar no outro o que ele tem de melhor, ser impactado e transformado pelo outro.

Comecei dizendo que já não posso mais voltar à minha rotina. A sensação de que preciso agradecer mais, ajudar mais, me doar mais às pessoas aumentou absurdamente. Sou uma pessoa que dá valor ao momento, às pequenas coisas. Mas preciso fazer mais ainda. O que posso fazer para agradecer à vida é ajudando pessoas. O sonho de trazer o Unogwaja para o Brasil vai acontecer.

Sonho grande, começarei com o possível. Sabe o que é o mais mágico disso? Não sonho sozinha! Nato Amaral, Michele Mansur, Rodrigo, Marina também estão neste sonho. Comecei a conversar com alguns amigos do Rio e o engajamento das pessoas é inspirador. O movimento “I wear Red Socks on Fridays”, RSF, crescerá exponencialmente no Brasil. Esta será a minha missão, o endereçamento da minha necessidade de ajudar pessoas e o meu agradecimento à toda a vida que minha vida ganhou com este projeto. 

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“You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one! I hope someday you’ll join us, and the world will be as one!” (Lennon)

A todas as pessoas que fizeram parte desta jornada, Unogwajas e equipe de apoio, à minha família, aos meus amigos, a todas as pessoas que mandaram boas energias, aos que contribuíram com o projeto, aos recém-chegados, aos que farão parte dele de agora em diante, a todas as pessoas que assumem a responsabilidade de suas vidas, a todas aquelas que inspiram pessoas a ser pessoas melhores, às pessoas que fazem a diferença onde podem, às pessoas que não dão ouvidos às suas desculpas para não agir: minha eterna gratidão! Sintam-se abraçados, como este emotivo, genuíno e fraterno abraço da foto abaixo! 

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