Sobre a repercussão do doping da Ariane Monticeli

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Foto: http://www.ecp.org.br/esportes/triatlo/noticias/com-o-terceiro-lugar-ariane-monticeli-e-a-melhor-brasileira-no-ironman-florianopolis

Quando li sobre o doping da Ariane Monticeli, as primeiras coisas que vieram à minha mente foram:

– Ela vai “apanhar” muito nas mídias sociais.
– Acho que ela não vai aguentar rojão, vai tentar se matar.
 
Para quem não é do meio do triathlon e/ou ainda não teve acesso às informações deste caso, uma breve introdução: Ariane Monticeli é reconhecida, por muitos, como a principal atleta brasileira de triathlon de longa distância. No último Ironman Brasil, Ariane não largou, apesar de ter arrumado seu material na área de transição.
 
Nas mídias sociais, Ariane disse que não havia largado porque estava sentindo dor na lesão, fruto de uma queda poucas semanas antes da prova. Segue a verdade, segundo matéria divulgada na “Flows Endurance Journal” (clique aqui!). 
No sábado, 27 de maio, por volta das 18 horas, a atleta foi notificada do resultado analítico adverso pela própria WTC, em reunião com a representante da empresa no Brasil e em tele-conferência com Kate Mittelstadt, chefe da comissão antidopagem da marca Ironman. A atleta foi, então, impedida de largar no Ironman Florianópolis, no dia seguinte.
Esta matéria da Flows mencionada acima divulgou em primeira mão o caso, dia 10/jun/2017. A partir daí, começaram a circular as mensagens. A primeira reação de todo mundo foi buscar mais informações nas mídias sociais da própria atleta. As contas de mídia social da atleta já estavam fora do ar: Facebook pessoal, profissional e Instagram. 
 
Em 11/jun/2017, no dia seguinte à divulgação pela FlowsAriane fez uma carta aberta no site do MundoTri, que pode ser lido na íntegra aqui em diversos sites, segue o link para o Flows. Na carta, Ariane afirma que fez tudo sozinha, diz que foi a primeira vez que usou, reconhece que só está assumindo porque foi pega e afirma
Fiquei mergulhada numa dor tão profunda que tentei tirar minha vida.” (Ariane Monticeli, em carta aberta, reproduzida pela Flows, link aqui)
Eu achei que ela fez bem em sair das mídias sociais e também em ter escrito a carta. Independentemente de acreditar ou não em tudo o que ali está escrito, queria trazer uma reflexão sobre as reações que estão em curso na página de treinadores, de outros atletas, em comentários nas postagens das mídias especializadas. 
 
Foi bacana ela ter ido a público assumir o fato, mas também é verdade que só o fez porque foi pega – afirmação dela. Ela não teria pra onde fugir, nem como se esconder. É o mérito da sanidade: não tentar mentir numa situação onde dizer a verdade é a única saída possível.
 
O fato é: Ariane Monticeli foi pega por doping. Quando lemos os comentários, precisamos ter em mente as motivações das pessoas. Tem de tudo nos comentários, pessoas defendendo o indefensável, pessoas querendo aliviar a culpa porque ela mesma assumiu, e uma maioria esmagadora entendendo que ela precisa ser punida sim. Em novembro de 2015, escrevi um artigo sobre como vejo | entendo o doping, uma visão histórica e também bem atual, leia aqui!
 
Enfim, vamos à repercussão do caso! Para isso, vamos listar quem está por trás dos comentários:
 
– Quem sempre se incomodou com a postura dela: arrogante, de soberba e de desprezo aos concorrentes
– Quem foi diretamente impactado pela “farsa”: atletas que competiram nas provas, atletas que disputam os mesmos patrocinadores
– Quem seguia e se inspirava na brutalidade e nos discursos de superação
– Quem invejava o sucesso
– Quem também se dopa
– Quem acha que todo mundo se dopa
– Quem acha que doping tem que ser liberado, que faz parte
– Quem faz parte do “deixa disso”
– Quem não se posiciona contra o que está errado
 

IRONMAN FLORIANÓPOLIS 2016: ENTREVISTA COLETIVA (FOTO: Jeferson Guareze/Agif/Gazeta Press)

Quem se expõe no nível que ela fazia, no tom que ela fazia, tem que estar muito preparado pra lidar com a avalanche que pode surgir em momentos como este. Da mesma forma que as pessoas se encantam, torcem, vibram, se emocionam… Elas também vão para o outro lado.

 
Eu acho que há um conjunto de perdas, dores e punições que as situações como esta trazem. Não, não basta apenas a justiça oficial e formal. Acho que a perda da popularidade, a perda da admiração, a perda do apoio da massa, o peso da decepção dos fãs, tudo isso faz parte da punição. Quando se posiciona contra atitudes erradas, valoriza-se aqueles que buscam fazer o certo.
 
Não é pelo fato de sermos humanos, falíveis, fracos que temos que passar a mão na cabeça de quem erra. Ao contrário, as pessoas são moldadas por duas coisas, basicamente: (1) seus valores pessoais e (2) medo da punição.
 
Um grande amigo mandou uma mensagem questionando a punição dizendo “e aquele papo de só o amor constrói?”. Para aprender, certamente, a pessoa precisa sentir algum incômodo. Ninguém melhora no conforto. Nem como pessoa! Ela mesma afirmou: se eu não fosse pega, jamais assumiria! Então vamos ao corretivo: exposição, afastamento do esporte, afastamento dos fãs, perda de credibilidade, impacto na imagem.
 
Isso não é apenas para que ela reflita e se arrependa. É para que as pessoas que talvez fizessem vejam que não vale a pena, que o risco é alto, que a perda é enorme. Se todos a acolhessem, apoiassem, qual seria a mensagem? Ah, queridinha! Pode fazer de novo e de novo e de novo! Teu carinho e amor estão garantidos! 
 
Quem se lança a fazer o que é errado, só para por punição. Se isso não existisse, se apenas o carinho e o acolhimento do erro fosse o “prêmio”, quem pararia? O carinho como prêmio seria incentivo. O amor vem antes. Vem buscando mostrar o que a pessoa pode perder (o amor mesmo) em caso de fazer besteira. 
 
Não é uma questão de falta de amor. É uma questão de justiça. Quando pensar em aliviar a pena de quem está errado, pense no tamanho do impacto que as atitudes erradas geram nos demais. E aquele atleta correto que segue lutando por uma vitória? 
 
Quem não se posiciona em relação ao que está errado, está prejudicando quem está certo. 
 
Que a Ariane pague o preço justo de ser quem foi até aqui, que apenas colha o que ela mesma plantou, nem mais nem menos. Que a família possa ajudá-la a aguentar esta fase. Que possa usar esta situação para rever, repensar, replanejar, se reconstruir, traçar um novo começo, uma nova história e que, passada a fase de turbulência, amadurecimento e aprendizado, que ela brilhe e seja muito feliz. 
 

 

Ariane Monticeli correndo na maratona do IronMan Florianópolis 2015. Foto: Erik Coser (https://alltrinews.com.br/ariane-monticeli-confirma-presenca-no-ironman-70-3-palmas/)

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1 Response

  1. Nelson Valente says:

    – Quem sempre se incomodou com a postura dela: arrogante, de soberba e de desprezo. Essa sua postura ajudou e muito á ser criticada no esporte. Tenho amigos com filhas pequenas que admiravam e muito ela, veja agora que exemplo. Se fosse uma pessoa humilde, atenciosa e amiga de todos (assim como muitos em nosso esporte) não seria tão pesado assim. Aliás, se fosse desse jeito nem estaria nessa enroscada. Que sirva de exemplo! A galera precisa acabar com esse estrelismo… é um esporte de superação, não de “ostentação”, exemplos positivos não faltam.

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